Irmã Annunziata Marchese MSC, testemunha direta da canonização da Madre Cabrini
As palavras a seguir são um testemunho escrito que a Irmã Annunziata Marchese MSC nos deixou em 2021, em Codogno.
 
A Irmã Annunziata nasceu em 1º de fevereiro de 1925 e faleceu em 12 de março de 2023. Ela passou os últimos anos de sua vida na comunidade do Sagrado Coração, em Codogno, na Itália.
No vídeo ao final de seu testemunho, ela nos contou mais sobre sua vida missionária.
Sant'Angelo, 7 de julho de 1996
Fui acolhida (em Roma) no Instituto das Missionárias do Sagrado Coração, o qual encontrei em fervorosa expectativa por aquele acontecimento que a Igreja havia marcado: a glorificação da Fundadora. Eu, porém, carregava no coração uma carga de tristeza: ainda estava viva em mim a tragédia daquela guerra que havia devastado o mundo. Persistia o eco dos bombardeios aéreos, dos boletins de guerra, das notícias dos mártires nas frentes de combate: parentes e companheiros que não voltaram mais. Eu vira ao meu redor o espectro da fome, as privações e as provações infligidas por uma guerra que parecia não ter fim. Muitas vezes me perguntei: como os poderosos das nações podem decidir uma guerra? Por que tanto absurdo? A história me parecia um emaranhado de ódio, vingança, crueldade e violência. Certamente a guerra de 1940-45 marcou as gerações daqueles anos! Eu era uma delas!
Mas chega, então, uma data: 7 de julho de 1946. Estou em São Pedro, a primeira vez que cruzava aquele limiar.
O templo, centro da cristandade, estava em um mar de luzes. Uma multidão em júbilo lotava a basílica; uma maré de gente havia acorrido da região de Lodi. A procissão papal era uma visão que me enchia de admiração. As notas de Perosi ecoavam majestosas sob a cúpula de Michelangelo. A glória de Bernini foi concedida a Madre Cabrini, porque "o Senhor coroa os humildes com a vitória". 
Um evento de Luz!
Lá, naquele templo, naquele dia, senti bater o coração da Igreja. Parecia que estava em outro planeta. Era a primeira canonização após os horrores da guerra.
Imersa naquela celebração, vi se desdobrar diante do meu espírito uma visão histórica muito mais ampla. A história agora me aparecia como o lugar da ação salvífica de Deus. 
Apesar de ela carregar os sinais do egoísmo humano, o fio da Providência se insere no tecido dos acontecimentos humanos e se torna presente por meio de seus santos.
Eles escrevem sua própria história, que se mistura como fermento, como profecia, na história universal, e oferece amor, doação, serviço.
Os santos são o que há de mais belo nesta terra.
Os santos são as sentinelas de Deus que, das mais diversas tribunas das situações humanas, proclamam o Evangelho com a vida à humanidade que muitas vezes tateia no escuro e precisa de Deus.
Por isso, eles são os verdadeiros benfeitores da humanidade.
Madre Cabrini, retratada em uma grande tela, era eloquente.
As palavras de Papa Pio XII, que definiu a trajetória de Cabrini como “uma obra admirável”, revelaram ao meu espírito uma visão luminosa da vida.
Saí de São Pedro entusiasmada, confirmada no compromisso da minha entrega a Cristo, enquanto percebia que a vida consagrada está no coração da Igreja. 
Essa mulher frágil, filha desta terra de Lodi, faz seu o lema paulino “Tudo posso naquele que me fortalece” e, com a força de Deus, se inclina sobre as misérias do nosso povo na diáspora e realiza o que os sistemas políticos muitas vezes não sabem planejar, nem muito menos concretizar.
Para além de todos os nacionalismos, ela pode afirmar: “A minha nacionalidade está no coração dos pobres, dos pobres que são o povo e a alma da minha fé”.
A glorificação de Madre Cabrini, vivida como um evento eclesial, fez-me perceber que a guerra é um absurdo; a lógica evangélica, quando informa e conquista as consciências, gera santos, humaniza a convivência humana e faz a fraternidade, a justiça e a paz florescerem.
Mas outra reflexão, naquele dia, tomava forma em mim. Eu via em Madre Cabrini a mulher realizada. A questão feminina ainda não havia explodido, estava submersa, mas existia.
Nessa apóstola dos dois mundos, percebi que, para além de todas as dissertações sobre o papel e os ministérios da mulher na estrutura eclesial, ela é chamada a tornar presente no mundo a ternura, a compaixão, o amor de Deus.
Cabe à mulher dar à Igreja aquele rosto, aquela dimensão feminina que nos séculos passados lhe faltaram.
Talvez na época de Madre Cabrini esses conceitos não fossem explícitos e muito menos discutidos, mas as santas os viveram, os traduziram em vida.
Hoje, as coisas estão mais claras para nós, e somos gratas a João Paulo II por nos ter ajudado a descobrir o gênio feminino, que é a riqueza da mulher e o segredo de sua presença construtiva na Igreja e em todos os âmbitos da existência humana.
Como Madre Cabrini! 
Irmã Annunziata Marchese 
Testemunha da Canonização
Ano 1946
 
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